O CRISTÃO E A POLÍTICA - Prof. Waldir Ramos
Introdução:
A política faz parte da vida
humana porque ninguém vive completamente isolado. Toda sociedade precisa
organizar sua convivência, estabelecer leis, administrar recursos, proteger
direitos e buscar soluções para problemas coletivos. Por isso, a política não deve
ser reduzida a partidos, eleições ou disputas de poder, só porque o termo foi
banalizado. Ela envolve a responsabilidade de governar e participar da vida
pública visando ao bem da comunidade.
Para o cristão, essa
participação precisa ser orientada pela soberania de Deus, pelo amor ao
próximo, pela justiça e pela verdade. A Bíblia não apresenta a política como
uma área moralmente neutra, nem ordena que todos os cristãos ocupem cargos
públicos. Entretanto, mostra diversos servos de Deus envolvidos em estruturas
de governo e ensina que os cidadãos devem agir com responsabilidade diante das
autoridades e da sociedade.
A questão principal não é
apenas se o cristão pode participar da política, mas de que maneira deve
fazê-lo sem transformar a fé em instrumento de dominação partidária, sem idolatrar
líderes e sem abandonar os princípios do evangelho. Mas antes de nos
aprofundarmos nessa área, precisamos primeiro entender as raízes da politica.
1.
O que é a política?
A palavra “política” vem do
grego politikḗ, relacionada a pólis, isto é, cidade ou comunidade
política. Na Antiguidade grega, a política dizia respeito à administração da
cidade e à participação dos cidadãos nas decisões públicas.
Aristóteles, em sua obra ''Política'', considerava a cidade uma comunidade formada com vistas a algum bem.
Para ele, a comunidade política deveria buscar o bem comum e possibilitar uma
vida ordenada e virtuosa. O cidadão era aquele que participava das funções
deliberativas, judiciais e administrativas da cidade.
Embora a concepção
aristotélica estivesse limitada pelo contexto da sociedade grega — que excluía
mulheres, escravos e estrangeiros da cidadania plena —, sua reflexão deixou uma
contribuição importante: a política não deve existir apenas para beneficiar governantes
ou grupos particulares, mas para cuidar da vida coletiva.
A política pode ser
compreendida como:
- A organização da vida
coletiva.
- A administração dos recursos
públicos.
- A elaboração e aplicação das
leis.
- A proteção dos direitos e da
dignidade humana.
- A busca de soluções para os
problemas sociais.
- A participação dos cidadãos
nas decisões que afetam a comunidade.
Nesse sentido, política existe
tanto no governo municipal, estadual e federal quanto na participação
comunitária, nos conselhos, nas associações, nas escolas, nas igrejas e em
outras instituições sociais.
A política se torna corrompida
quando o poder público deixa de servir ao bem comum e passa a ser utilizado
para enriquecimento pessoal, perseguição de adversários, manipulação das massas
ou manutenção de privilégios. Aristóteles distinguiu as formas de governo
orientadas ao bem comum daquelas que se degeneravam em benefício dos
governantes. Essa distinção continua atual: o problema não é apenas a forma de
governo, mas a finalidade e o caráter de quem governa.
Romanos 13.1-4 afirma que a
autoridade civil possui uma função de ordem e justiça. Entretanto, a própria
Escritura também denuncia reis, sacerdotes e governantes que abusaram do poder.
O profeta Natã confrontou Davi por causa do pecado contra Urias e Bate-Seba
(2Sm 12.1-12); Elias confrontou Acabe pela apropriação da vinha de Nabote (1Rs
21); e João Batista denunciou Herodes por sua imoralidade (Mc 6.17-20).
Assim, respeitar a autoridade
não significa aprovar todo ato do governo. O cristão deve reconhecer a
legitimidade da ordem pública, mas também manter sua lealdade suprema a Deus.
Quando as autoridades exigem aquilo que contradiz claramente a vontade divina,
prevalece o princípio de Atos 5.29: “Mais importa obedecer a Deus do que aos
homens”.
2.
A política na história bíblica.
A Bíblia não apresenta um
tratado sistemático de ciência política, mas acompanha a história da humanidade
mostrando diferentes formas de organização social e governamental.
Nos primeiros relatos
bíblicos, a organização social aparece principalmente em torno da família, dos
clãs e das tribos. Abraão exercia liderança sobre sua casa, seus servos e seus
aliados. Ele também negociou, tomou decisões militares e dialogou com reis, como
Melquisedeque, rei de Salém, e o rei de Sodoma (Gn 14).
Mesmo nesse período inicial, a
Bíblia demonstra que a liderança deveria estar relacionada à responsabilidade
moral. Abraão foi chamado para ser uma bênção às famílias da terra (Gn 12.1-3),
e não apenas para buscar benefícios pessoais.
Com Moisés, Israel passou de
uma família numerosa para uma comunidade nacional. O povo recebeu leis,
instituições, princípios de justiça e formas de organização social.
Em Êxodo 18, Jetro aconselhou
Moisés a estabelecer líderes sobre grupos de mil, cem, cinquenta e dez pessoas.
Essa passagem apresenta princípios de delegação, administração e justiça.
Moisés não deveria concentrar sozinho todas as decisões do povo.
A Lei também estabelecia
proteção para estrangeiros, viúvas, órfãos e pobres (Êx 22.21-27; Lv 19.9-18;
Dt 24.17-22). O governo e a vida comunitária deveriam refletir a justiça de
Deus.
Deuteronômio 17.14-20
apresenta orientações para o rei de Israel. O governante não deveria
multiplicar cavalos, mulheres ou riquezas, nem considerar-se superior ao povo.
Deveria conhecer a Lei e viver debaixo dela. Esse texto ensina que o poder
precisa ser limitado pela justiça e pela submissão a princípios superiores.
No período dos juízes, Israel
viveu grande instabilidade política e espiritual. O livro de Juízes repete que
“cada um fazia o que parecia direito aos seus olhos” (Jz 21.25). A ausência de
liderança justa produziu violência, idolatria e desordem.
O livro mostra que a sociedade
não é corrigida apenas por estruturas políticas. A corrupção pública
frequentemente está relacionada à corrupção do coração. Por isso, a
transformação política precisa ser acompanhada de conversão moral e espiritual.
Com Saul, Davi e Salomão,
Israel passou a ter uma monarquia. Davi foi escolhido por Deus, mas seus
pecados demonstraram que até um rei ungido poderia abusar do poder. Salomão
começou seu governo pedindo sabedoria para julgar o povo (1Rs 3.9), mas
posteriormente acumulou riquezas, mulheres e alianças que comprometeram sua
fidelidade (1Rs 11.1-13).
Depois da divisão do reino,
muitos reis foram condenados pelos profetas por causa da idolatria, da injustiça
e da exploração dos pobres. O problema não era a existência de uma estrutura
política, mas a infidelidade dos governantes e do povo.
Os profetas apresentaram uma
visão profundamente ética da vida pública:
- Isaías condenou governantes
que estabeleciam leis injustas e exploravam os necessitados (Is 10.1-2).
- Amós denunciou a corrupção
judicial e a exploração dos pobres (Am 2.6-7; 5.11-15).
- Miqueias resumiu a vontade
de Deus em três atitudes: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar
humildemente com Deus (Mq 6.8).
- Jeremias orientou os
exilados a buscarem o bem da cidade onde estavam vivendo (Jr 29.7).
Durante o exílio, judeus fiéis
serviram dentro de governos pagãos sem abandonar sua identidade espiritual.
Esse período oferece alguns dos exemplos mais relevantes para a discussão sobre
o cristão e a política.
José foi vendido como escravo,
mas Deus o elevou a uma posição de autoridade no Egito. Em Gênesis 41.38-46,
Faraó o nomeia governador, colocando-o responsável pela administração do país.
José utilizou sua posição para
administrar a produção e preservar vidas durante uma grande fome. Seu exemplo
mostra que um servo de Deus pode atuar em uma estrutura política não israelita
e buscar o bem de uma população ampla.
Contudo, o relato também exige
leitura cuidadosa: a política econômica de José fortaleceu enormemente o poder
de Faraó e levou a população a vender terras, rebanhos e liberdade para
sobreviver (Gn 47.13-26). Portanto, o texto não deve ser usado de maneira
simplista para glorificar qualquer concentração de poder. Ele mostra tanto a
capacidade administrativa de José quanto a complexidade moral das decisões
políticas.
Daniel serviu em diferentes
governos, primeiro na Babilônia e depois no império medo-persa. Nabucodonosor o
colocou sobre toda a província da Babilônia (Dn 2.48), e posteriormente ele se
destacou entre os administradores do reino de Dario, porque nele havia “um espírito
excelente” (Dn 6.1-3).
Daniel não se isolou da vida
pública, mas também não permitiu que o governo redefinisse sua adoração. Ele
serviu com competência, honestidade e fidelidade, mas continuou orando a Deus
mesmo quando uma lei imperial tentou impedir sua devoção (Dn 6.10).
Ester tornou-se rainha no
império persa e utilizou sua influência para impedir o extermínio do povo
judeu. Mardoqueu também ocupou posição relevante no governo (Et 8.1-2).
O livro de Ester destaca a
responsabilidade de agir em momentos de crise. A pergunta de Mardoqueu — “Quem
sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” (Et 4.14) —
mostra que posição e influência podem trazer uma vocação de serviço.
Ester não usou sua autoridade
para benefício individual, mas para proteger pessoas ameaçadas. Sua atuação
envolveu prudência, estratégia, coragem, jejum e disposição para correr riscos.
Neemias foi copeiro do rei
Artaxerxes e recebeu autorização para reconstruir os muros de Jerusalém (Ne
1–6). Ele articulou recursos, organizou trabalhadores, enfrentou oposição e
corrigiu abusos econômicos entre os próprios judeus (Ne 5.1-13).
Neemias combina
espiritualidade e administração. Ele orou, planejou, negociou e tomou decisões
públicas. Seu exemplo demonstra que oração não substitui planejamento, assim
como planejamento não substitui dependência de Deus.
Agora falando sobre o Novo
Testamento, Jesus viveu sob o domínio do Império Romano. Ele não liderou um
movimento armado para conquistar o poder político, mas também não foi
indiferente às questões públicas. Ensinou a dar “a César o que é de César e a
Deus o que é de Deus” (Mt 22.21), confrontou a hipocrisia dos poderosos e
anunciou um reino que relativiza todos os impérios humanos.
O Apóstolo Paulo, por sua vez,
utilizou seus direitos como cidadão romano para obter proteção legal e
denunciar abusos (At 16.35-40; 22.25-29; 25.10-12). Isso demonstra que o
cristão pode usar instrumentos jurídicos e institucionais para defender a
justiça.
3.
O cristão pode se envolver na política?
Sim. O cristão pode participar
da política como cidadão, eleitor, líder comunitário, conselheiro, servidor
público, assessor, candidato ou ocupante de cargo eletivo. A Bíblia não
estabelece uma proibição geral contra essa participação.
A participação, porém, não é
automaticamente santa apenas porque alguém usa linguagem religiosa. Também não
é automaticamente pecaminosa apenas porque ocorre no ambiente público. O
critério bíblico é o caráter, a finalidade e os meios utilizados.
Jeremias 29.7 ordena aos
exilados que buscassem a paz e a prosperidade da cidade onde viviam. Embora o
contexto seja o exílio na Babilônia, o princípio mostra que o povo de Deus deve
contribuir para o bem da sociedade, mesmo vivendo sob um governo que não compartilha
sua fé.
O cristão não existe apenas
para cuidar dos interesses internos da igreja. Ele é chamado a ser sal da terra
e luz do mundo (Mt 5.13-16).
Jesus resumiu a Lei no amor a
Deus e ao próximo (Mt 22.37-40). A política envolve decisões que afetam
diretamente os pobres, doentes, idosos, crianças, trabalhadores, imigrantes e
pessoas vulneráveis.
Por isso, a indiferença diante
da injustiça pode contradizer o amor cristão. Defender políticas públicas
justas, combater a corrupção e proteger a dignidade humana podem ser expressões
concretas do amor ao próximo.
A Bíblia ordena: “Aprendei a
fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão;
tratai da causa das viúvas” (Is 1.17). Provérbios 31.8-9 também chama o povo de
Deus a falar em favor dos que não podem defender-se.
Esses textos não determinam um
único programa partidário, mas estabelecem critérios morais: justiça, defesa
dos vulneráveis, honestidade e responsabilidade.
Paulo ensinou os cristãos a
respeitarem as autoridades e a cumprirem suas responsabilidades civis (Rm
13.1-7; Tt 3.1). Jesus também falou sobre o pagamento de impostos (Mt
22.17-21).
Ao mesmo tempo, a obediência
ao Estado não é absoluta. As parteiras hebreias desobedeceram à ordem de Faraó
de matar os meninos hebreus (Êx 1.15-21). Os apóstolos recusaram-se a parar de
anunciar Cristo quando foram proibidos pelas autoridades (At 4.18-20; 5.29).
A postura cristã, portanto,
não é anarquia nem submissão cega: é respeito responsável, com resistência
quando o poder viola a justiça e a vontade de Deus.
4.
De que forma o cristão pode participar?
Como cidadão, o voto deve ser
exercido com responsabilidade, não com idolatria. O cristão deve avaliar
candidatos e propostas por critérios como:
- Integridade e histórico
público.
- Competência e
responsabilidade administrativa.
- Compromisso com a verdade.
- Respeito à dignidade humana.
- Disposição para prestar
contas.
- Defesa da justiça e dos
vulneráveis.
- Capacidade de dialogar e
respeitar as instituições.
Nenhum candidato representa
perfeitamente o Reino de Deus. O cristão precisa rejeitar a ideia de que
determinado partido, político ou ideologia é equivalente ao evangelho.
A participação política não se
limita ao dia da eleição. O cristão pode acompanhar o orçamento público,
participar de audiências, fiscalizar obras, cobrar transparência, integrar
associações, dialogar com representantes e denunciar irregularidades.
A democracia depende de
cidadãos que não abandonem o espaço público. A política se deteriora quando
pessoas honestas se retiram completamente e deixam as decisões nas mãos de
grupos interessados apenas em poder.
Como servidor público, o
cristão que exerce uma função pública deve enxergar seu trabalho como serviço,
não como oportunidade de privilégio. José, Daniel e Neemias demonstram
competência e fidelidade em ambientes de governo.
A ética pública exige:
- Recusar suborno e
favorecimento indevido.
- Não usar o cargo para
enriquecimento pessoal.
- Tratar cidadãos com
igualdade.
- Cumprir leis justas.
- Prestar contas.
- Proteger o interesse
público.
- Admitir erros e corrigir
abusos.
Romanos 12.2 ensina que o
cristão não deve conformar-se com o padrão corrompido do mundo. Isso também se
aplica à cultura política.
Como candidato, o cristão pode
candidatar-se, desde que compreenda que o cargo não lhe dá autoridade
espiritual sobre a consciência das pessoas. Um político cristão não deve
instrumentalizar a igreja, usar o púlpito como palanque ou confundir a
autoridade pastoral com a autoridade estatal.
Ele deve lembrar-se de que o
poder é temporário. Salmos 146.3 adverte: “Não confieis em príncipes”. A
esperança final da igreja não está em governos humanos, mas no reinado de
Cristo.
A presença cristã na política
pode produzir benefícios, mas também apresenta perigos importantes.
Quando cristãos tratam um
líder como salvador da pátria, perdem a centralidade de Cristo. Nenhum
governante merece confiança absoluta. A Bíblia afirma que “maldito é o homem
que confia no homem” como fundamento último de sua esperança (Jr 17.5),
enquanto o Salmo 146.3 orienta a não colocar a esperança nos príncipes.
O nome de Deus pode ser
utilizado para legitimar interesses pessoais, campanhas eleitorais e projetos
autoritários. A igreja precisa discernir quando a linguagem religiosa está
servindo ao evangelho e quando está apenas buscando votos.
O ambiente político costuma
estimular insultos, suspeitas e desumanização dos adversários. O cristão deve
lembrar que até o oponente político é uma pessoa criada à imagem de Deus (Gn
1.26-27). É possível discordar firmemente sem mentir, caluniar ou odiar.
Nenhum projeto político
justifica mentira, compra de votos, suborno, violência ou manipulação. A
finalidade não santifica meios pecaminosos. O cristão não deve defender o erro
apenas porque foi praticado por alguém do seu grupo.
O Reino de Deus não pode ser
reduzido a um partido, uma nação ou uma ideologia. Jesus declarou que seu reino
não era deste mundo no sentido de ter origem e funcionamento semelhantes aos
impérios humanos (Jo 18.36). O Reino de Cristo transforma pessoas e sociedades,
mas não pode ser capturado por qualquer estrutura partidária.
5.
Grandes influencias políticas na história.
A reflexão cristã sobre
política também dialogou com grandes teólogos e filósofos da história.
A) Agostinho de Hipona:
O teólogo e escritor Agostinho,
em ‘’A Cidade de Deus’’, distinguiu a “cidade de Deus” da “cidade dos homens”.
Ele não estava falando simplesmente de duas instituições políticas, mas de duas
orientações do amor: a sociedade humana marcada pelo amor próprio e a
comunidade orientada pelo amor a Deus.
Para Agostinho, nenhum Estado
terreno é perfeito, porque todos os seres humanos são marcados pelo pecado.
Essa visão ajuda o cristão a evitar utopias políticas. Nenhuma revolução,
partido ou governo realizará plenamente a justiça do Reino de Deus.
Ao mesmo tempo, Agostinho não
defendia a indiferença. A autoridade civil tem a responsabilidade de preservar
uma ordem mínima e conter a violência, embora permaneça limitada e sujeita ao
juízo de Deus.
B) Tomás de Aquino:
O teólogo e também escritor Tomás
de Aquino desenvolveu uma concepção de lei natural e bem comum. Para ele, a
autoridade política deveria promover condições para uma vida humana digna e
ordenada. A lei injusta, por contrariar a razão e o bem comum, perde sua força
moral em determinado sentido.
A contribuição de Tomás é
importante porque mostra que a política precisa estar submetida à justiça, e
não apenas à vontade do governante ou à força da maioria.
C) Martin Luther King e Malcolm X:
Martin Luther King Jr. foi
pastor batista e líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Sua atuação política estava fundamentada na dignidade humana, na justiça, na
igualdade e na resistência não violenta. Ele utilizava argumentos bíblicos,
especialmente relacionados ao amor ao próximo, à justiça e à dignidade de todos
os seres humanos.
Malcolm X, por sua vez,
destacou a autodeterminação da população negra, a resistência ao racismo e o
direito à defesa diante da violência e da opressão. Embora tenha seguido uma
trajetória religiosa islâmica e não possa ser apresentado como teólogo cristão,
sua atuação é relevante para compreender diferentes formas de participação
política e de luta por justiça.
Conclusão:
O cristão pode e, em muitos
casos, deve envolver-se responsavelmente na política. A Bíblia mostra homens e
mulheres de fé atuando em governos, aconselhando autoridades, defendendo os
oprimidos, administrando recursos e resistindo a leis injustas. José, Daniel,
Ester, Neemias, Moisés, Paulo e outros exemplos demonstram que a presença do
povo de Deus na sociedade pode produzir proteção, justiça e ordem.
Entretanto, a participação
política cristã precisa ser marcada por humildade e discernimento. O cristão não
deve idolatrar governantes, transformar partidos em igrejas, usar o nome de
Deus para manipular consciências ou abandonar a ética em nome de resultados
eleitorais.
A política é um campo de serviço ao próximo, mas não é o lugar onde a humanidade encontrará sua salvação definitiva. Governos são necessários, porém limitados. Partidos podem ser úteis, porém imperfeitos. Líderes podem contribuir, porém falham. A esperança final da igreja está em Jesus Cristo, o verdadeiro Rei, cujo reino é de justiça, paz e verdade.
Por isso, o cristão deve
participar da vida pública com consciência, honestidade e coragem, lembrando-se
das palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra” e “vós sois a luz do mundo”
(Mt 5.13-14). A missão cristã não termina na igreja; ela alcança a família, o
trabalho, a comunidade e também a política — sempre sob o senhorio de Cristo.
Referências
bíblicas:
- Gênesis 41.38-46 — José como
governador do Egito.
- Êxodo 1.15-21 — As parteiras
que resistiram a uma ordem injusta.
- Êxodo 18.13-27 — Organização
administrativa proposta por Jetro.
- Deuteronômio 17.14-20 —
Limites e deveres do rei.
- 2Samuel 12.1-12 — Natã
confrontando Davi.
- 1Reis 21 — Elias
confrontando Acabe.
- Ester 4–8 — Ester e
Mardoqueu defendendo seu povo.
- Jeremias 29.7 — Busca do bem
da cidade.
- Daniel 2.48; 6.1-10 — Daniel
no serviço público e sua fidelidade.
- Miquéias 6.8 — Justiça,
misericórdia e humildade.
- Mateus 5.13-16 — Sal da
terra e luz do mundo.
- Mateus 22.15-22 — César e
Deus.
- Marcos 6.17-20 — João
Batista confrontando Herodes.
- Atos 4.18-20; 5.29 —
Obediência a Deus acima das autoridades.
- Atos 16.35-40; 22.25-29;
25.10-12 — Paulo utilizando seus direitos civis.
- Romanos 13.1-7 —
Responsabilidade diante das autoridades.
- 1Timóteo 2.1-2 — Oração
pelos governantes.
- 1Pedro 2.13-17 — Respeito às
autoridades e prática do bem.
Referências
bibliográficas:
AGOSTINHO, Santo. A cidade
de Deus. Tradução, prefácio e notas de J. Dias Pereira. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 2011-2017. 3 v.
ARENDT, Hannah. A condição
humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.
ARENDT, Hannah. O que é
política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
ARISTÓTELES. Política.
Tradução de António Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes. Lisboa: Vega,
1998.
ARISTÓTELES. Política.
Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Edipro, 2019.
AQUINO, Tomás de. Do
governo dos príncipes ao rei de Chipre. São Paulo: Edições Loyola, 1997.
AQUINO, Tomás de. Suma
teológica. Tradução de Carlos Josaphat Pinto de Oliveira et al. São Paulo:
Edições Loyola, 2010.
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém.
Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
BÍBLIA. Bíblia Sagrada:
Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
BOBBIO, Norberto. A teoria
das formas de governo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.
BOBBIO, Norberto. Estado,
governo, sociedade: para uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1987.
BONHOEFFER, Dietrich. Ética.
São Leopoldo: Sinodal, 2009.
CALVINO, João. As
institutas da religião cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 4 v.
CARTER, Warren. The Roman
Empire and the New Testament: An Essential Guide. Nashville: Abingdon
Press, 2006.
CÍCERO, Marco Túlio. Da
república. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
CÍCERO, Marco Túlio. Dos
deveres. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GRUDEM, Wayne. Política
segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
HAYS, Richard B. A ética do
Novo Testamento: o caminho da obediência. São Paulo: Vida Nova, 1997.
HORSLEY, Richard A. Jesus e
o império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus,
2004.
HORSLEY, Richard A. (org.). Paul
and Empire: Religion and Power in Roman Imperial Society. Harrisburg:
Trinity Press International, 1997.
KELLER, Timothy. Justiça
generosa: a graça de Deus e a justiça social. São Paulo: Vida Nova, 2013.
LIMA, Francisco Jozivan Guedes
de. Sobre a noção de bem comum no pensamento político ocidental: entre becos
e encruzilhadas da dimensão ancestral do moderno conceito de interesse público.
Revista de Investigações Constitucionais, Curitiba, 2019.
LUTERO, Martinho. Sobre a
autoridade secular: até que ponto se lhe deve obediência. São Leopoldo:
Sinodal, 1995.
MILLER, David. The Gospel
and the Common Good: An Examination of the Meaning and Practice of Christian
Social Responsibility. Oxford: Oxford University Press, 2007.
NIEBUHR, H. Richard. Cristo
e cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
PLATÃO. A República. Tradução
de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017.
PLATÃO. As leis.
Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2010.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do
contrato social. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2011.
SHAEFFER, Francis A. Como
devemos viver? A ascensão e o declínio da cultura ocidental. São Paulo:
Cultura Cristã, 2003.
SILVA, Maria Freire da. Análise
do livro de Ester: a ação política do cristão brasileiro e a experiência de
Deus. Reveleteo: Revista Eletrônica Espaço Teológico, São Paulo,
2018.
SOUSA, Luís Carlos Silva de. Lei
natural e bem transcendental em Tomás de Aquino. Kalagatos: Revista de
Filosofia, Fortaleza, 2021.
STARK, Rodney. A vitória do
cristianismo: como uma religião proibida dominou o mundo. São Paulo:
Crítica, 2017.
STOTT, John. Cristianismo
equilibrado. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
STOTT, John. O cristão em
uma sociedade não cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A
democracia na América. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
WEBER, Max. Ciência e
política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.
WEBER, Max. Economia e
sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1999. 2 v.
WILKEN, Robert Louis. The
First Thousand Years: A Global History of Christianity. New Haven: Yale
University Press, 2012.
WRIGHT, Christopher J. H. A
missão do povo de Deus: uma teologia bíblica da missão da igreja. São
Paulo: Vida Nova, 2012.
YODER, John Howard. A
política de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 1988.
Comentários
Postar um comentário